Na vida do Reino não existe violência doméstica — Parte 2

Por Samuel Mendes

O que a Bíblia diz sobre a violência pensando na família e nas relações humanas?

Malaquias 2.13–16 diz-nos : “13 Há outra coisa que vocês fazem: Enchem de lágrimas o altar do SENHOR; choram e gemem porque ele já não dá atenção às suas ofertas nem as aceita com prazer. 14 E vocês ainda perguntam: “Por quê?” É porque o SENHOR é testemunha entre você e a mulher da sua mocidade, pois você não cumpriu a sua promessa de fidelidade, embora ela fosse a sua companheira, a mulher do seu acordo matrimonial. Não foi o SENHOR que os fez um só? Em corpo e em espírito eles lhe pertencem. E por que um só? Porque ele desejava uma descendência consagrada. Portanto, tenham cuidado: Ninguém seja infiel à mulher da sua mocidade. 16 “Eu odeio o divórcio”, diz o SENHOR, o Deus de Israel, e também odeio homem que se cobre de violência como se cobre de roupas (ou na variante textual*, que “cobre a sua mulher de violência”), diz o SENHOR dos Exércitos. Por isso, tenham bom senso; não sejam infiéis.” Malaquias 2:13–16 NVI * Nota 2.16 NVI

Contexto da Malaquias 2, a Violência e a Aliança

Entre 500 e 450 a.C., o profeta Malaquias denuncia que o povo não estava obedecendo às leis de Deus e que era necessário que eles abandonassem os seus pecados e as suas maldades. Falou contra os sacerdotes, pois eles não estavam cumprindo o seu dever de apresentar sacrifícios e ofertas que agradassem a Deus. Em No 2º capítulo, Deus passa a condenar o repúdio da própria esposa e do matrimônio com mulheres estrangeiras.

Deus estabeleceu uma aliança com seu povo. A fidelidade estava no centro de todas as leis de Deus. No entanto, o povo não estava a ser fiel ao SENHOR nem em seus relacionamentos com as demais pessoas. Na Lei dada a Moisés, a violência, os maus tratos e exploração são condenados! Não deveriam ser infligidos a outras pessoas, aos vizinhos ou aos escravos. (Ex. 21:18–27)

Homens de Judá estavam casando com mulheres estrangeiras, de nações e culturas que adoravam falsos ídolos. (v. 11). Ao casar-se com esposas estrangeiras, tinham “quebrado o pacto” com o SENHOR. Maridos sentindo aversão por sua esposa mandavam-nas embora, divorciando-se delas. O divórcio que “Deus odeia” neste contexto específico não é motivado por qualquer falha identificada por parte da esposa de sua juventude (da aliança v. 14), mas ao marido, que a abandona por outra pessoa (v. 11).

Eles choravam pela misericórdia de Deus, mas não tinham intenção de mudar seus caminhos. Os homens de Israel foram culpados de infidelidade às suas esposas (vv. 14–15). Eles não só estavam se casando com mulheres que seriam más influências, mas destruindo famílias, com implicações muito graves para os filhos e a proteção social das próprias esposas abandonados. Malaquias diz que as esposas eram inocentes. Ao fazê-lo “traiçoeiramente” (é a tradução da palavra que é forte no original), que significa cobrir como uma peça de roupa, e é figurativo para agir secretamente para o mal. Significa saquear e lidar com outra pessoa de forma enganosa, traiçoeira e infiel. Crianças sob a aliança de Deus que poderiam herdar e transmitir as bênçãos de Deus e sua salvação, ficavam expostas e ameaçadas não só na sua sobrevivência, mas também na manutenção dos valores espirituais. No propósito de Deus, o seu povo deveria manter o padrão da aliança vivendo de forma leal e fiel. Só assim poderiam ser uma luz para as nações, e um canal de sua salvação e graça.

O uso de três termos de sofrimento emocional “lágrimas”, “chorar” e “lamento” denota a extrema perturbação gerada a eles. Deus odeia o divórcio (v. 16a). O estrago que pode causar o divórcio, conforme a situação do texto, não só despedaça as pessoas emocionalmente e espiritualmente, mas destrói a unidade familiar, a unidade básica e o tecido da sociedade. As esposas e os filhos, neste cenário, são economicamente desfavorecidos, emocionalmente e psicologicamente desfavorecidos, espiritual e sociologicamente desfavorecidos. O divórcio é assim uma agressão a esta ordem. Ele considera o divórcio cruel — um ato de extrema violência (v. 16b). Deus odeia o divórcio e repudia aquele que age com violência com o cônjuge abandonado. Toda vítima do divórcio por abandono, traição ou violência é violentada psicologicamente .

Na antiga Israel, um homem indicaria sua intenção de se casar com uma mulher cobrindo-a com uma parte de seu roupão ou roupa externa. Boaz espalhou uma peça sobre Rute (Rute 3:9) tal como hoje o anel no dedo representa o casamento. Assim, o divórcio foi comparado a se cobrir com violência — um contraste direto com a segurança, provisão e fidelidade simbolizadas por um noivo cobrindo sua noiva pretendida com seu roupão. Em vez de fornecer a segurança que o casamento implica (e promete), o divórcio arranca com força a uma mulher e seus filhos da sua proteção, deixando-os como se fossem “nus”, desprovidos — e não estão mais cobertos e seguros. Dessa forma, o divórcio gera violência.

Deus não aceita o culto desses homens porque Ele não aceita a quebra da aliança conjugal deles. Para Deus, o divórcio é semelhante a cobrir as vestes de violência, metáfora de todo tipo de injustiça que, assim como o sangue de uma vítima assassinada, deixa marcas bem visíveis. Violência é uma palavra forte usada para descrever atos brutais e deploráveis que violam a ordem de Deus. É inaceitável para Deus. Sua violência através do divórcio equivale a usar um avental de açougueiro que fica manchado de sangue.

Aplicação dos Princípios de Malaquias 2.13–16 e o Novo Testamento

Deus se opõe absolutamente à violência doméstica de qualquer forma! As duas ações, tanto o divórcio neste cenário de abandono, como a violência familiar provocada e a violência doméstica podem ser vistas como complementares. Esta última pode levar à desobrigação da esposa do pacto conjugal em compensação pelo sofrimento físico, emocional, econômico, verbal ou espiritual continuado que venha a sofrer, quando não haja da parte do abusador arrependimento e mudança.

As consequências são dramáticas, socialmente, mas também espiritualmente. Se há maldade no coração, Deus não ouve as orações. Tal como a rejeição dos sacrifícios de homens violentos, sem arrependimento e mudança na sua postura e más decisões, o apóstolo Pedro afirma o mesmo princípio: “Do mesmo modo vocês, maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e co-herdeiras do dom da graça da vida, de forma que não sejam interrompidas as suas orações.” 1Pe 3.7 NVI

Implica na quebra de legitimidade espiritual e o rompimento na relação com Deus, motivado pela desonra e desrespeito para com o valor e dignidade da mulher, que é singular e tão elevada no propósito de Deus. Suas orações são interrompidas é a consequência espiritual, moral e relacional do abuso para com mulheres, mas também homens, crianças, idosos e de todos aqueles que estejam na condição de vulneráveis.

Jesus, o Príncipe da paz, condenou qualquer forma de violência e deu ele mesmo exemplo do respeito e valor de todos os seres humanos. Fossem mulheres, crianças, pessoas marginalizadas… A permissão para o divórcio presente na lei mosaica (Dt 24.1–4) era para proteger a esposa de um marido mau, e não uma autorização para ele se divorciar dela por qualquer motivo e sim uma permissão. (Mt 19.3–9) Na perspectiva de Jesus e das primeiras comunidades cristãs originárias que se seguiram, notamos que houve um resgate significativo do papel social da mulher e o reconhecimento de sua plena dignidade e valor. Ela não só foi reconhecida na mesma posição de igualdade em relação ao homem, mas também valorizada pela sua contribuição singular como “co-participante no dom da vida.”

Mas e Efésios 5.22?

Apesar de existirem diferentes papeis e competências na relação conjugal, como amplamente tem sido ensinado na nossa tradição cristã, o v.21 “Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo.” precede no texto o verso 22 que afirma: “Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como ao Senhor”. A mútua submissão é o padrão que aprendemos no Novo Testamento! Quando Paulo diz em Efésios 5.25, “os maridos amem suas esposas como Cristo amou a Igreja”, ele reforça o peso que “amar como Cristo“ tem para o homem na “equação”. Notemos que é mais elevado o padrão requerido ao homem, junto com a sua responsabilidade… A aplicação deste princípio proíbe categoricamente cada atitude ou comportamento que resulta em um marido desvalorizando, humilhando, menosprezando ou ferindo emocionalmente ou fisicamente sua esposa.

A mulher ser submissa, à luz do texto bíblico, não significa que ela foi criada diferente e sim igual: “Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos” Gen 2.23. Submissão não libera o homem para tratá-la como inferior, mas sim tratá-la com amor, respeito e cuidado. Se um marido usa Efésios 5 como justificativa para sua esposa se submeter em todas as coisas, mesmo abuso de qualquer forma, isso precisa ser feito em plena consciência do todo o texto afirma, e o que 5:25 diz… Pois se, os maridos são capazes de agir dessa forma desonrosa em relação às suas esposas, isso quer dizer que Cristo abusou e explorou a sua igreja? Absolutamente não! Pelo contrário, “amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela.”!

Consequências do abuso e da violência

O abuso contínuo em um casamento é prejudicial para todos. Tenha como gatilhos o alcool ou as drogas, a raiva ou o controle abusivo, representam formas de doença que precisam ser tratadas nas suas causas. Se o abusador não for responsabilizado, ainda mais arraigado no pecado ele se tornará. O bem-estar emocional e físico da(s) vítima(s) será corroído e, por vezes, até posto em risco… Os filhos serão prejudicados pelo modelo disfuncional e abusivo que recebem, bem como pelo medo, sigilo imposto e negação.

As vítimas diretas não são as únicas prejudicadas pela violência doméstica. O ciclo de abuso é tal que aqueles que são criados em ambientes de violência doméstica são mais propensos a serem abusadores. Este padrão de violência nos pais, repetido nos filhos, forma uma corrente que pode e precisa ser interrompida! Tornar o abuso parte do caráter resulta em uma pessoa que se torna, ela mesma vítima da sua violência numa visão espiritual. Ela se torna prisioneira das garras satânicas e de formas destrutivas de pecado, através do descontrole, explosões, formas violentas da doença da agressividade, gerando abuso de si mesmo e dos outros. Porque é uma doença precisa ser tratada nas suas causas, que muitas vezes se misturam com a sua história, com as formas de pecado e de violência que gera mais violência. Paulo lembra-nos que ser saudável espiritualmente consiste no oposto, é exibir o fruto do Espírito, que inclui “paciência, bondade, bondade, fidelidade, gentileza e autocontrole” (Gal. 5:22–23). Nenhuma dessas características encontra realização em um abusador. O abusador necessita de Cristo e do seu poder transformador, tal como a vítima necessita de cura e libertação!

Um Caminho de Esperança e Cura

Muitas mulheres, pessoas, menores abusados e vulneráveis finalmente reuniram coragem suficiente para procurar ajuda! Para vencer as amarras da falsa culpa, das mentiras, do abuso psicológico… Para sair do ambiente tóxico e de violência… Coragem para interromper a cadeia destrutiva de violência, de ameaça, de medo. Coragem para sair de relações abusivas e tóxicas. Coragem para denunciar!

O desafio de cada vítima não é apenas passar de sofredor para sobrevivente de violência, mas sim passar de vítima para vencedora. Os sobreviventes percebem sua necessidade de enfrentar o passado para se curar. Eles ainda não estão curados, mas estão trabalhando para resolver falsa culpa, vergonha, insegurança e raiva. Quando as vítimas permitem que Cristo assuma o controle de suas vidas, elas podem experimentar o seu amor e poder para superar as coisas mais difíceis, pois Jesus disse: “Neste mundo vocês terão aflições. Mas tenham bom ânimo! Eu superei o mundo” Jn 16:33.

Conclusão:

Bater na esposa, agredir os filhos, maltratar os pais ou idosos, seja com palavras ou ameaças é ferir a dignidade do próximo, é agredir a imagem e semelhança de Deus no outro. É o anti-evangelho!

A violência doméstica é pecado! Qualquer forma de abuso, de desrespeito, de violência é uma afronta contra Deus, contra a sua vontade! É desrespeito contra a dignidade e a vida do outro, contra a família, contra o padrão de fidelidade e relacionamentos que Deus estabeleceu.

Vítimas e agressores precisam de Cristo! Do seu poder transformador e curador! Tanto o abusado como o abusador precisa lidar com o problema também aos pés de Jesus e buscar ajuda para ser mais do que sobrevivente, ser um(a) vencedor(a) com Cristo! “Somos mais do que vencedores através daquele que nos amou” (Rom. 8:37).

A igreja é parte dos recursos que estão disponíveis para acolher, apoiar e tratar vítimas de violência doméstica. O nosso Centro de Aconselhamento quer apoiar você nesta jornada: Se vc quer conversar ou obter apoio poderá enviar um email para pastoreio@ibmorumbi.com.br.

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Igreja Batista do Morumbi

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